 |
O mensalão de todos nós
(Pedro Paulo Rodrigues Cardoso de Melo)
Numa tarde de sexta-feira, recebi um telefonema de um amigo me convidando para ir a um churrasco na sua casa. O churrasco seria a despedida de um outro amigo nosso que havia sido transferido de cidade. Acontece que na naquela noite eu tinha que dar aula na faculdade. Melhor, eu tinha que dar quatro aulas na faculdade e, por isso, não poderia ir ao churrasco de despedida do amigo. O problema é que eu queria ir ao churrasco e, também, não queria dar as aulas que eu tinha que dar. Instalou-se, então, um conflito. De um lado gritava o desejo de não dar aula e de estar junto dos amigos em uma comemoração e de outro reinava a obrigação que deveria ser cumprida. Como solucionar o problema de uma forma que eu ganhasse nas duas frentes era o que eu tinha que fazer. Mas, como?
Bem, eu agi como, geralmente, todos nós agimos: fiz de conta que estava cumprindo com a minha obrigação quando, na verdade, fui de encontro à satisfação do meu prazer e me menti várias vezes dizendo aos amigos que havia deixado os alunos estudando na biblioteca da faculdade. Parecia que eu queria me convencer transformando em verdade uma mentira que eu sabia que era mentira, já que tinha sido eu o seu protagonista.
O churrasco iria começar às oito horas da noite e a aula às sete e meia. Ora, fui para a faculdade, registrei a aula, fiz a chamada e inventei uma aula de leitura na biblioteca com a desculpa (ou melhor, mentira) que eles (os alunos) precisavam ler mais e mandei que se dirigissem à biblioteca, abandonando a turma. Depois, fui à outra turma (a que iria assistir aula depois do intervalo) e fiz a mesma coisa. Depois disso, saí para o churrasco querendo acreditar que havia cumprido religiosamente com o meu dever de professor.
No churrasco, fiquei numa mesa com o dono da casa, que é médico, o amigo que estava sendo homenageado, que é policial, um amigo do homenageado que é advogado e político e a sua esposa que é universitária e estuda no período da noite. Entre muita cerveja e pouca carne o assunto era um só: a roubalheira dos nossos políticos e a passividade da sociedade (todos nós) mediante a podridão do episódio do mensalão. Todos nós estávamos revoltados e propondo soluções para o melhor funcionamento da máquina pública e para o resgate da ética entre a classe política.
O dono da casa receitou para o país o seguinte tratamento: "precisamos renovar a classe política. Há trinta anos que no Brasil os políticos são os mesmos e há trinta anos que eles fazem as mesmas coisas". Lógico, que todos nós concordamos e assinamos em baixo da sua receita mostrando-lhe apoio e solidariedade.
Depois disso, surge no grupo o plano da universitária. Segundo ela, "ou resgatamos os valores morais da sociedade ou estaremos condenados, para sempre, ao subdesenvolvimento". Mais uma vez, todos nós concordamos e quase aplaudimos. Principalmente eu, que "sou professor".
Lá para tantas, o policial homenageado decretou: "o problema do Brasil é a impunidade. Os políticos roubam e nada acontece com eles". Nesse momento todos nós falamos, citando exemplos, que corroboravam com a verdade falada pelo amigo militar deixando claro que acreditávamos que ele estava com a mais pura razão.
Depois disso, falou o político. Começou defendendo a classe, dizendo que "nem todos os políticos são corruptos, mas que alguém deveria, sim, promover uma limpeza nas instituições nacionais e em todos os níveis para o bem geral da nação". Em tese, ele aperfeiçoou a receita do amigo anfitrião.
Num dado momento, o telefone do dono da casa tocou e ele se afastou um pouco para atender. Não deu para ouvir o que ele falava, mas era notório que ele vociferava bravo. Cerca de um minuto depois ele retornou à mesa e, com raiva, falou que "não dava para trabalhar com certas pessoas". O telefonema que ele havia recebido era do hospital. Naquela noite ele estava de plantão, mas ele já havia passado no trabalho e, para o meu consolo, havia usado a mesma tática usada por mim na faculdade. Chegou cedo no hospital, visitou alguns pacientes e leu "por cima", os prontuários dos outros. Depois de uma hora foi para casa e deixou a seguinte recomendação: "só me liguem em caso de extrema emergência ou se aparecer pacientes particulares". Sendo assim, era um absurdo a enfermeira lhe telefonar só porque chegara um senhor de setenta e quatro anos de idade com suspeita de infarto. "Se, ao menos ele estivesse sido diagnosticado, ela poderia me ligar", desculpou-se. Ele "receitou" alguns medicamentos pelo telefone e disse que a enfermeira podia retornar a ligação (se ela tivesse coragem para isso), caso acontecesse alguma coisa.
Na tentativa de aliviar o clima, perguntei ao amigo que estava recebendo a homenagem se ele já havia feito a sua mudança. Ele respondeu que sim e, satisfeitíssimo, contou que a mesma não tinha lhe custado nada. Intrigado, pois sabia que ele estava indo morar em uma localidade distante quase quinhentos quilômetros da nossa cidade, perguntei como isso havia acontecido.
Segundo ele, o dono de uma transportadora lhe havia retribuído "um favor", já que ele, meses antes, tinha "resolvido" uns probleminhas de multas nos seus carros que poderiam lhe custar a habilitação e, até mesmo, a sua empresa!
De repente, a esposa do político liga para uma colega que estava assistindo aula para saber se tinha dado certo "aquele plano". Ou seja, o plano da colega responder a chamada por ela enquanto ela estava no churrasco, pois ela já estava "pendurada nas faltas" na disciplina em questão e não poderia, "por nada", ser reprovada. E, toda feliz, sorriu com a assertiva da colega. O plano havia dado certo. Mais feliz, porém, fiquei eu, pois a faculdade que ela devia estar assistindo aula era a mesma que eu devia estar lecionando. Portanto, eu estava diante de uma companheira de enganação.
Em um outro momento, o anfitrião pergunta ao político como iria ficar o caso de uma determinada pessoa. Apenas isso. E ele respondeu que tudo estava indo bem. O único problema era que na secretaria almejada já havia alguém concursado ocupando cargo que tal pessoa pleiteava, mas que ele não se preocupasse, pois estavam estudando uma medida legal (?) para transferir o "dito cujo" de função ou de setor para a vaga "do fulano" ser ocupada por ele. "Ele é um que não pode ficar de fora, pois foi comprometido com a gente até o fim", finalizou.
Em meio a tudo isso, não deixávamos de falar das CPI's, da corrupção dos políticos e da cumplicidade da sociedade que, apática, não movia uma palha para mudar nada.
Chegando em casa fui pensar naquela noite e em tudo o que havia presenciado. De repente, me dei conta que o escritor baiano João Ubaldo Ribeiro está certo quando diz que "nós vivemos num ambiente de lassitude moral que se estende a todas as camadas da sociedade e que esse negócio de dizer que as elites são corruptas mas que o povo é honesto é conversa fiada. Nós somos um povo de comportamento desonesto de maneira geral, ou pelo menos um comportamento pouco recomendável".
O melhor era que eu não precisava pesquisar em nenhuma fonte bibliográfica para concordar com o escritor. A sua afirmação estava magistralmente retratada no meu comportamento e no comportamento dos meus amigos naquela noite e naquele churrasco que eu havia freqüentado.
Recebemos o mensalão quando sonegamos imposto, quando matamos aula e inventamos uma justificativa para não levarmos falta, quando faltamos ao trabalho e fazemos de conta que não faltamos (como eu fiz) ganhando o que é indevido, quando copiamos ou compramos CD's piratas, quando pagamos propinas ao guarda de trânsito para ele não nos aplicar uma multa que ele deveria aplicar, enfim, todos nós, cada um a seu modo e com o seu preço, também é culpado, pessoalmente, por tudo isso que está acontecendo no nosso país.
Finalizando, é bom não esquecermos que os nossos políticos não vieram de Marte; não vieram de uma outra galáxia ou do céu, mas do nosso meio, um meio que é corrompido por nós, pois somos, também, corruptos e corruptores. É bom não esquecermos, de igual modo, que esse é o real motivo para a sociedade (nós) assistir apática a toda essa decadência, pois no fundo, não é apatia, mas cumplicidade. Nenhum de nós toma uma atitude de mudança porque acreditamos (ou temos a certeza) que se um dia estivermos no lugar dos políticos, faremos a mesma coisa que eles fazem, aumentando o nosso mensalão. Como disse Freud, "seríamos bem melhores se não quiséssemos ser tão bons", e ele estava certo. Bom seria se tivéssemos a honradez de olhar para essa verdade constantemente.
Minhas reflexões foram interrompidas por um telefonema do meu cunhado, avisando que meu pai falecera naquela noite, vítima de um infarto, pela negligência médica de um doutor conhecido nosso, uma vez que ele chegou ao hospital ainda com vida e a enfermeira tentou inutilmente, por diversas vezes, localizar o medico de plantão, que não compareceu para atendê-lo.
Pedro Paulo Rodrigues Cardoso de Melo Psicólogo Clínico, Psicopedagogo e Professor Universitário de Psicologia e Sociologia.
Colaboração: Washington/Silvério.
|